Você já ficou parado na farmácia olhando para uma prateleira cheia de probióticos, sem saber qual escolher? Se sim, saiba que essa dúvida faz todo sentido. Visualmente, as embalagens até parecem oferecer o mesmo produto, mas o que está dentro delas pode ser tão diferente quanto comparar duas raças de cachorro só porque ambas são “cães”. Um golden retriever e um chihuahua pertencem à mesma espécie, mas têm temperamento, porte e função completamente distintos. Com os probióticos acontece algo parecido: o gênero e a espécie do microrganismo dizem pouco sobre o que ele realmente faz no seu corpo.
O que é, afinal, um probiótico
Probióticos são microrganismos vivos que, quando consumidos em quantidade adequada, conferem benefícios à saúde do hospedeiro. Essa é a definição consolidada na literatura científica e usada por sociedades médicas e órgãos regulatórios ao redor do mundo [1]. Até aqui, tudo bem, mas a definição esconde um detalhe crucial: benefício de saúde não é uma propriedade do gênero ou da espécie do microrganismo. É uma propriedade da cepa.
Pense na cepa como o “sobrenome de família” de um microrganismo; é o que identifica aquele indivíduo específico dentro da espécie, com seu próprio conjunto de genes, mecanismos de ação e comportamento no organismo. Duas cepas da mesma espécie podem ter efeitos completamente diferentes: uma pode ajudar na diarreia, outra pode não fazer diferença nenhuma para esse mesmo problema. É por isso que, na ciência dos probióticos, os resultados obtidos com uma cepa não podem ser generalizados para outras cepas da mesma espécie, mesmo que o rótulo pareça idêntico [1].
Medicamento ou suplemento? Essa diferença importa mais do que parece
Outro ponto que costuma passar despercebido: nem todo probiótico é um medicamento. Muitos são vendidos como suplementos alimentares, e essa classificação tem implicações práticas relevantes. Suplementos seguem uma via regulatória diferente de medicamentos.
Já os probióticos registrados como medicamentos passam necessariamente por um caminho que precisa de estudos que comprovem eficácia para indicações específicas, registradas e adotadas em bula. É o caso do Floratil, que contém a cepa Saccharomyces boulardii CNCM I-745, uma das mais estudadas no mundo, com ampla literatura clínica publicada ao longo de décadas de uso, indicada como auxiliar do tratamento da diarreia, prevenção da diarreia causada por antibióticos e equilíbrio da microbiota intestinal [2].
O que torna a CNCM I-745 uma cepa diferenciada
Um dos aspectos mais interessantes dessa cepa é que ela é uma levedura, não uma bactéria, e isso muda tudo em um cenário específico: o uso durante tratamento com antibióticos. Por sua natureza fúngica, o S. boulardii CNCM I-745 é naturalmente resistente aos antibióticos utilizados na prática clínica, o que permite associá-lo a um tratamento antibiótico sem perda de eficácia, algo que nem todo probiótico bacteriano consegue garantir, já que muitas cepas de bactérias são sensíveis aos próprios antibióticos que deveriam ajudar a compensar [3, 4].
Essa característica não é um detalhe menor. Antibióticos, embora essenciais, desorganizam a microbiota intestinal de forma expressiva, reduzindo a diversidade de espécies presentes no intestino. Estudos mostram que a suplementação com essa cepa específica está associada a uma recuperação mais rápida da microbiota após esse tipo de desequilíbrio, funcionando quase como um “amortecedor” que sustenta o ecossistema intestinal enquanto o antibiótico faz seu trabalho contra a infecção original [4, 5].
A robustez dessa evidência não é pequena: revisões sistemáticas com meta-análise, reunindo milhares de participantes, mostram redução significativa no risco de diarreia associada a antibióticos com o uso da CNCM I-745 em comparação a grupos-controle [5]. E o corpo de evidências acumulado ao longo dos anos é extenso; a cepa conta com um dos maiores volumes de estudos clínicos publicados entre os probióticos disponíveis no mercado, adicionando um número expressivo de ensaios clínicos à literatura, dentre eles estudos randomizados, revisões e observacionais, em diferentes contextos clínicos [2, 6].
Reconhecida por sociedades médicas
A recomendação do S. boulardii CNCM I-745 não vem apenas de estudos isolados. Guias de prática clínica do Departamento Científico de Gastroenterologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) incluem a cepa entre as opções com evidência suficiente para uso como coadjuvante no tratamento da diarreia aguda em crianças, com dose recomendada de 250 a 750 mg por dia, geralmente por 5 a 7 dias [7]. Esse tipo de posicionamento, vindo de uma sociedade médica, é justamente o tipo de “selo de qualidade” que diferencia uma cepa validada cientificamente de uma escolha aleatória de prateleira.
Estudos comparativos também indicam algo relevante na prática: em comparações diretas, o tempo de resolução dos sintomas com essa cepa tende a ser mais rápido do que com outras cepas avaliadas nos mesmos contextos, uma diferença de horas que, para quem está lidando com uma criança com diarreia aguda, faz bastante diferença no dia a dia [6].
Na hora de escolher, vá além da embalagem
Se tem uma coisa que vale levar desse texto, é isto: escolher um probiótico não deveria ser uma decisão baseada em qual embalagem está mais bonita ou em qual está mais barata na prateleira. Vale parar e conversar com seu médico ou nutricionista.
| Qual é a cepa específica, não apenas a espécie, presente no produto? |
| Essa cepa tem respaldo científico para a situação que você está tentando resolver? |
| Qual é o contexto de uso, é um medicamento registrado, com indicação clínica definida, ou um suplemento genérico? |
Em situações que exigem eficácia comprovada, como no manejo da diarreia aguda, essas perguntas deixam de ser curiosidade técnica e passam a ser parte de uma escolha informada. Porque, no fim das contas, a escolha certa começa sempre pela cepa certa.
Referências
[1] HILL, C. et al. Expert consensus document: The International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics consensus statement on the scope and appropriate use of the term probiotic. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, 2014.
[2] MORÉ, M. I.; SWIDSINSKI, A. Saccharomyces boulardii CNCM I-745 supports regeneration of the intestinal microbiota after diarrheic dysbiosis – a review. Clinical and Experimental Gastroenterology, 2015. Disponível em: PMC4542552.
[3] KAUR, I. P. et al. Unique Properties of Yeast Probiotic Saccharomyces boulardii CNCM I-745: A Narrative Review. Disponível em: PMC10621882.
[4] STIER, H.; BISCHOFF, S. C. Influence of Saccharomyces boulardii CNCM I-745 on the gut-associated immune system. Clinical and Experimental Gastroenterology, 2016.
[5] McFARLAND, L. V.; LI, T. Saccharomyces boulardii CNCM I-745 for Prevention of Antibiotic-Associated Diarrhea and Clostridioides difficile in China: Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Digestive Diseases and Hepatology, v. 9, p. 208, 2024.
[6] ALTCHEH, Jaime et al. Randomized, direct comparison study of Saccharomyces boulardii CNCM I-745 versus multi-strained Bacillus clausii probiotics for the treatment of pediatric acute gastroenteritis. Medicine, v. 101, n. 36, p. e30500, 2022.
[7] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Gastroenterologia. Diarreia Aguda: Diagnóstico e Tratamento — Guia Prático de Atualização. Rio de Janeiro: SBP, 2017.
