A utilização de microrganismos com potencial benefício à saúde antecede em milhares de anos o próprio entendimento da microbiologia.
Diversas civilizações antigas, especialmente na Ásia, Oriente Médio e Europa Oriental, já consumiam alimentos fermentados, como kefir, iogurte e vegetais fermentados, não apenas por preservação, mas também por efeitos percebidos na saúde.
Embora não houvesse conhecimento sobre bactérias ou leveduras, esses alimentos continham microrganismos vivos que hoje reconhecemos como potencialmente benéficos (1).
O nascimento do conceito científico de probióticos
O primeiro grande avanço conceitual ocorreu no início do século XX, com o trabalho do cientista russo Elie Metchnikoff, do Instituto Pasteur, laureado com o Prêmio Nobel.Metchnikoff observou que populações rurais da Bulgária apresentavam maior longevidade e melhor estado de saúde, associando esse fenômeno ao consumo regular de leite fermentado contendo Lactobacillus delbrueckii subsp. bulgaricus, descrito por Stamen Grigorov em 1905 (2).
A partir dessas observações, Metchnikoff chegou a uma conclusão inovadora: as bactérias que vivem no intestino podem tanto prejudicar quanto proteger a saúde. Ele percebeu que certas bactérias presentes no intestino grosso produziam substâncias tóxicas como subprodutos da digestão e que essas substâncias, acumuladas ao longo do tempo, poderiam acelerar o envelhecimento do organismo.
Por outro lado, o consumo de bactérias benéficas como as presentes em alimentos fermentados poderia equilibrar esse ambiente e reduzir esses efeitos prejudiciais (2,3).
Consolidação das espécies bacterianas benéficas
Nas décadas seguintes, diversos pesquisadores ampliaram esse conhecimento:
- Henry Tissier (1899) identificou Bifidobacterium em lactentes amamentados, associando sua presença à proteção contra diarreia (4).
- Ernst Moro descreveu o Lactobacillus acidophilus (5).
- Alfred Nissle (1917) isolou a cepa Escherichia coli Nissle 1917 com potencial terapêutico (6).
Minoru Shirota (1930) desenvolveu uma cepa de Lactobacillus, originando a primeira bebida probiótica comercial (7).
A descoberta da Saccharomyces boulardii
Enquanto a maior parte das pesquisas iniciais focava em bactérias, um avanço importante ocorreu com a descoberta de uma levedura com propriedades probióticas.
Na década de 1920, o microbiologista francês Henri Boulard observou, durante um surto de cólera no Sudeste Asiático, que populações locais consumiam chá preparado a partir das cascas de frutas tropicais, como lichia e mangostão, para tratar quadros de diarreia (8).
A partir dessa observação, ele isolou uma levedura — posteriormente denominada Saccharomyces boulardii.
Esse foi um marco importante porque:
- Diferente das bactérias, trata-se de uma levedura não causadora de doenças
- Possui resistência natural a antibióticos
- Atua no lúmen intestinal sem necessidade de colonização permanente
A cepa posteriormente caracterizada como CNCM I-745 tornou-se uma das mais estudadas no mundo, com evidência clínica robusta em diferentes condições gastrointestinais (8,9).
Mecanismos de ação da Saccharomyces boulardii (não causadora de doenças)
Ao longo das décadas seguintes, diversos estudos demonstraram que S. boulardii (não causadora de doenças) I-745 atua por múltiplos mecanismos:
- Inibição de patógenos
- Neutralização de toxinas bacterianas
- Modulação da resposta imune
- Melhora da função de barreira intestinal
Além disso, por ser uma levedura, apresenta resistência a antibióticos e alta estabilidade no trato gastrointestinal (8,9).

Evolução do termo “probiótico”
O termo “probiótico” surgiu posteriormente e evoluiu ao longo das décadas.
A definição moderna foi consolidada por Roy Fuller, que definiu probióticos como microrganismos vivos capazes de beneficiar o hospedeiro por meio do equilíbrio da microbiota intestinal (10).
A definição atual, proposta pela International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics (ISAPP), mantém esse conceito:
“Microorganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefício à saúde do hospedeiro” (11).
Da microbiota como ecossistema
Durante grande parte do século XX, a medicina concentrou-se na eliminação de microrganismos. Com o avanço da microbiologia molecular, o intestino passou a ser compreendido como um ecossistema complexo, no qual a composição e a diversidade microbiana exercem papel fundamental na saúde (1).
Probióticos na prática clínica: a importância da cepa
Um dos principais avanços recentes foi o entendimento de que os efeitos dos probióticos são cepa-dependentes.
Nesse contexto, a Saccharomyces boulardii CNCM I-745, presente no Floratil®, é uma das cepas mais estudadas, com evidência em:
- Diarreia associada a antibióticos
- Infecção por Clostridioides difficile
- Diarreia aguda infecciosa (9)
Diretrizes internacionais, como as da ESPGHAN, recomendam o uso de probióticos específicos, incluindo Saccharomyces boulardii (não causadora de doenças) como adjuvantes no manejo da gastroenterite aguda e na prevenção de diarreia associada a antibióticos, especialmente em crianças (12,13).
Conclusão
A história dos probióticos reflete a evolução da ciência da microbiota — de observações empíricas até intervenções clínicas baseadas em evidência.
Hoje, mais do que utilizar probióticos, é essencial compreender qual cepa utilizar, em qual contexto e com qual objetivo clínico (11):
- Nem todo probiótico é igual
- Os efeitos são específicos de cada cepa
- A indicação clínica é determinante para o resultado
Referências
- SANDERS, M. E. et al. Probiotics and prebiotics in intestinal health and disease. Gut, 2019.
- METNIKOFF, E. The Prolongation of Life. New York: Putnam, 1907.
- OUWEHAND, A. C. et al. Probiotics: an overview of beneficial effects. Antonie van Leeuwenhoek, 2002.
- TISSIER, H. Recherches sur la flore intestinale du nourrisson. 1900.
- IDREES, M. et al. Probiotics: their action modality and the use of multi-omics technologies. Frontiers in Nutrition, 2022.
- SONNENBORN, U.; SCHULZE, J. The non-pathogenic Escherichia coli strain Nissle 1917. Microbial Ecology in Health and Disease, 2009.
- KATO-KATAOKA, A. et al. Fermented milk containing Lactobacillus casei strain Shirota prevents the onset of physical symptoms in medical students under academic stress. Applied and Environmental Microbiology, 2016.
- MCFARLAND, L. V. Systematic review and meta-analysis of Saccharomyces boulardii. World Journal of Gastroenterology, 2010.
- SZAJEWSKA, H.; KOŁODZIEJ, M. Systematic review with meta-analysis: Saccharomyces boulardii in the prevention of antibiotic-associated diarrhoea. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, 2015.
- FULLER, R. Probiotics in man and animals. Journal of Applied Bacteriology, 1989.
- HILL, C. et al. Expert consensus document: ISAPP consensus statement. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, 2014.
- GUARIÑO, A. et al. ESPGHAN/ESPID guidelines for acute gastroenteritis in children. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, 2014.
- SZAJEWSKA, H. et al. Probiotics for the prevention of antibiotic-associated diarrhea in children. ESPGHAN Guidelines, 2016.