O que realmente acontece além do efeito desejado do antibiótico de tratar um foco de infecção — e como mitigar os efeitos indesejados de forma baseada em evidência.

Antibiótico não atua apenas no patógeno-alvo — ele remodela o ecossistema intestinal

Quando prescrevemos um antibiótico, o alvo terapêutico é claro: uma bactéria patogênica responsável por uma infecção específica. No entanto, biologicamente, essa intervenção não é localizada. Antibióticos exercem um efeito sistêmico sobre o microbioma intestinal, promovendo uma alteração significativa na composição, diversidade e função da microbiota.

Estudos em pediatria mostram que mesmo exposições curtas, incluindo cursos de 48 horas, são suficientes para reduzir diversidade microbiana, diminuir populações consideradas benéficas — como Bifidobacterium e Lactobacillus — e favorecer expansão de grupos como Proteobacteria. Essas alterações não são transitórias imediatas e podem persistir por semanas ou meses após o término do tratamento.

Diarreia associada ao antibiótico é apenas a ponta do iceberg

Na prática clínica, a diarreia associada a antibióticos (AAD) é o evento mais facilmente reconhecido. No entanto, ela representa apenas a manifestação clínica visível de um processo mais amplo de disbiose (explicado na sequência).

Antes do aparecimento da diarreia, já ocorre:

  • Redução relevante da diversidade microbiana
  • Alterações metabólicas da microbiota
  • Modificação da resposta imune intestinal
  • Alteração da integridade da barreira mucosa
  • Aumento da presença de bactérias com potencial de causar doença

Ou seja, a diarreia não é o único problema, mas sim um marcador clínico de uma perturbação ecológica mais profunda. A ausência de diarreia não 

O conceito de disbiose: o que de fato está acontecendo

Disbiose associada a antibióticos pode ser definida como um desequilíbrio estrutural e funcional da microbiota intestinal caracterizado por três eixos principais:

  • Redução de microrganismos com papel protetor
  • Expansão de patobiontes
  • Perda de diversidade microbiana

Esse cenário altera funções essenciais do microbioma, incluindo produção de ácidos graxos de cadeia curta, regulação da imunidade mucosa e resistência à colonização por patógenos.

Além disso, antibióticos selecionam genes de resistência no microbioma intestinal (resistoma), que podem persistir e ser transferidos horizontalmente entre bactérias, ampliando o impacto para além do indivíduo.

Por que isso é particularmente crítico na pediatria?

A infância, especialmente os primeiros anos de vida, representa uma janela crítica de desenvolvimento do microbioma. Nesse período, a microbiota não está estável — está em formação ativa e interagindo diretamente com o sistema imune e metabólico em maturação.

Interferências nesse momento podem não apenas gerar alterações transitórias, mas modificar trajetórias de desenvolvimento.

Exposição precoce e repetida a antibióticos tem sido associada, em estudos observacionais e meta-análises, a maior risco de desfechos como doenças alérgicas, obesidade, doenças inflamatórias e alterações do neurodesenvolvimento, frequentemente com relação dose-resposta.

Embora causalidade direta nem sempre possa ser estabelecida, a consistência dessas associações reforça a relevância clínica da disbiose induzida por antibióticos.

Uso racional: o problema não é usar antibiótico — é como usamos

Diante desse cenário, a discussão não deve ser polarizada entre usar ou não usar antibióticos. Em pediatria, eles são frequentemente necessários e salvam vidas.

O ponto central é reconhecer que:

  • A prescrição tem impacto além da infecção tratada
  • Há custo biológico associado
  • Esse custo pode ser parcialmente mitigado

Isso fundamenta estratégias de uso racional de antibiótico, com foco em indicação correta, escolha de espectro adequado, dose e duração otimizadas.

Probióticos: efeito é de cepa

Menina com dor abdominal relacionada à disbiose e diarreia associada a antibióticos em crianças.

Um dos conceitos mais importantes — e frequentemente negligenciados — é que probióticos não são intercambiáveis.

Os efeitos clínicos observados em estudos são:

  • Específicos da cepa
  • Dependentes da dose
  • Dependentes da indicação clínica

Portanto, não é correto extrapolar benefício de um probiótico para outro, mesmo dentro do mesmo gênero ou espécie.

Quais probióticos têm evidência para diarreia associada a antibióticos?

Para prevenção e redução da diarreia associada ao uso de antibióticos em crianças, as evidências mais consistentes são para:

  • Saccharomyces boulardii CNCM I-745
  • Lacticaseibacillus rhamnosus GG

Meta-análises e revisões sistemáticas demonstram redução significativa do risco de AAD com essas cepas, com número necessário para tratar em torno de 9–10 em populações pediátricas.

Além disso, o S. boulardii apresenta uma característica relevante: por ser uma levedura, não é inativado por antibióticos, permitindo uso concomitante sem perda de eficácia.

Como utilizar na prática? O que dizem as diretrizes mais recentes

  • Iniciar o probiótico junto com o antibiótico
  • Utilizar doses adequadas
  • Manter por período prolongado 

Esse racional considera que a disbiose persiste além do término do antibiótico, e que a intervenção deve acompanhar essa fase de recuperação da microbiota.

O que diz a diretriz ibero-latino-americana para prevenção da Doença Diarreica aguda associada ao uso de antibióticos?

Com base em evidência de qualidade moderada, a diretriz recomenda:

  • Uso de S. boulardii em doses ≥ 750 mg/dia por pelo menos 21 dias
  • Ou L. rhamnosus GG em doses ≥ 10¹⁰ UFC/dia pelo mesmo período

Um ponto crítico: o probiótico deve ser iniciado simultaneamente ao antibiótico e mantido por pelo menos 21 dias, independentemente da duração da antibioticoterapia. 

Esse racional parte do princípio de que a disbiose não termina com a suspensão do antibiótico — ela persiste e requer tempo para recuperação.

Existe diferença entre as cepas na prática clínica?

Especialistas clínicos da diretriz ibero-latino-americana se posicionaram considerando o S. boulardii superior em eficácia, seguido por L. rhamnosus, com equivalência em segurança. 

Essa percepção não vem de um único ensaio, mas de experiência acumulada aliada à interpretação do conjunto da evidência.

Por que S. boulardii pode ser percebido como superior?

Essa diferença percebida pode ser explicada por aspectos farmacológicos e biológicos específicos.

Primeiro, há uma vantagem estrutural: S. boulardii é uma levedura (fungo), não uma bactéria. Isso significa que não é inativado por antibióticos, permitindo administração concomitante sem perda de viabilidade — um ponto particularmente relevante na prática.

Além disso, apresenta mecanismos de ação distintos, incluindo:

  • Produção de proteases capazes de degradar toxinas bacterianas, incluindo toxinas de Clostridioides difficile
  • Modulação da resposta inflamatória intestinal
  • Interferência na adesão de patógenos à mucosa

Esses mecanismos tornam sua atuação potencialmente mais robusta em cenários de disbiose mais pronunciada.

Por fim, existe um componente não desprezível de experiência clínica: maior familiaridade e uso acumulado podem influenciar a percepção de eficácia por especialistas.

Mensagem prática

Antibióticos tratam infecções, mas também induzem uma perturbação relevante da microbiota intestinal — especialmente em crianças.

A diarreia é apenas a manifestação mais visível de um processo mais amplo de disbiose.

Reconhecer isso muda a prática:

Prescrever quando necessário
Evitar quando não indicado
E, quando utilizados, considerar estratégias de mitigação baseadas em evidência

Nesse contexto, probióticos com cepas específicas — e não “probióticos genéricos” — têm papel consistente.

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